Uma paixão nacional transformada em sofrimento, uma história de sonhos interrompidos e um país que parece ter desistido do seu próprio futebol.
Há mortes que não precisam de funeral. Há sonhos que não precisam de uma lápide. E há paixões que, lentamente, vão sendo assassinadas diante dos olhos de todos, sem que ninguém pareça suficientemente incomodado para gritar.
É assim que muitos amantes do futebol são-tomense se sentem: abandonados, desiludidos e profundamente angustiados perante o estado do futebol em São Tomé e Príncipe.
Mataram o futebol de São Tomé e Príncipe? Talvez seja uma expressão demasiado dura para alguns. Mas como chamar a um cenário em que a esperança dos jovens se perde, os clubes lutam para sobreviver, os talentos crescem sem horizontes e os adeptos assistem, impotentes, ao enfraquecimento de uma das maiores paixões populares do país?
O futebol não é apenas uma bola a rolar num campo. É identidade, é cultura, é pertença. É aquele domingo em que uma comunidade se reúne, em que um jovem veste orgulhosamente a camisola do seu clube, em que um pai leva o filho pela mão para assistir a uma partida e lhe ensina que aquela equipa também faz parte da sua história.
O futebol é emoção. É lágrima depois de uma derrota, é abraço depois de um golo, é rivalidade que termina numa conversa entre amigos. É, para muitos jovens são-tomenses, um dos poucos lugares onde ainda conseguem imaginar um futuro diferente.
Mas que futuro estamos a oferecer a esses jovens?
Que esperança podemos transmitir a um rapaz que acorda todos os dias a sonhar com uma carreira no futebol, mas encontra pela frente dificuldades estruturais, falta de condições, ausência de oportunidades e um sistema que parece não conseguir transformar talento em futuro?
Quantos talentos terão ficado pelo caminho? Quantos jogadores poderiam ter representado dignamente São Tomé e Príncipe além-fronteiras, mas nunca tiveram as condições necessárias para mostrar o seu verdadeiro valor?
E a pergunta mais dolorosa: quem está verdadeiramente preocupado?
Não se trata de procurar culpados por conveniência, nem de transformar esta crónica numa guerra contra pessoas ou instituições. Trata-se de exigir responsabilidade, visão, compromisso e, acima de tudo, respeito por uma modalidade que pertence ao povo.
Uma federação não pode viver apenas de cargos e representações institucionais. Os clubes não podem continuar a carregar sozinhos o peso de uma estrutura que precisa de funcionar como um todo. O futebol precisa de organização, formação, investimento, transparência, planeamento e competição de qualidade.
Precisamos de campos dignos, de treinadores valorizados, de árbitros respeitados, de dirigentes comprometidos e de campeonatos que devolvam ao público a vontade de acreditar.
Precisamos de olhar para a formação, porque o futuro do futebol não nasce nos gabinetes: nasce nos bairros, nos campos improvisados, nos pés descalços dos miúdos que chutam uma bola com a esperança de um dia vestirem a camisola da seleção nacional.
E dói particularmente quando pensamos na seleção. Representar São Tomé e Príncipe deveria ser motivo de orgulho, de mobilização nacional e de esperança coletiva. A camisola nacional não pode ser apenas um equipamento desportivo. Deve representar um projeto, uma ambição e o compromisso de um país com os seus atletas.
O futebol são-tomense não precisa de discursos bonitos. Precisa de atitudes concretas.
Ainda vamos a tempo de recuperar aquilo que parece estar a desaparecer. Mas é preciso coragem para reconhecer os problemas, humildade para ouvir quem está no terreno e determinação para mudar o que não funciona.
Porque o futebol não pertence a dirigentes, não pertence a instituições e muito menos a interesses particulares. O futebol pertence aos jogadores que dão o corpo em campo, aos clubes que resistem, aos adeptos que nunca abandonaram as bancadas e às crianças que ainda sonham.
E é por essas crianças que não podemos aceitar o silêncio.
Mataram o futebol de São Tomé e Príncipe?
Se ainda não morreu, está profundamente ferido. E a maior tragédia seria assistirmos à sua morte sem sequer tentarmos salvá-lo.
São Tomé e Príncipe merece mais. Os seus jovens merecem mais. Os seus clubes merecem mais. E o seu futebol merece respeito.
Que esta não seja apenas uma crónica de indignação. Que seja um grito de alerta. Porque um país que abandona o seu futebol corre o risco de abandonar também uma parte dos sonhos da sua juventude.
O futebol são-tomense não precisa de um funeral. Precisa de um renascimento!
Por: Souahills Dendê

