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Lígia Santos: «Não podemos exigir resultados de nível internacional a jovens que não têm as mesmas oportunidades de preparação»

Data da publição: Nov 6, 2026

Lígia Santos: «Não podemos exigir resultados de nível internacional a jovens que não têm as mesmas oportunidades de preparação»

Em entrevista exclusiva ao Futebol STP, a selecionadora nacional Sub-15 analisa a participação de São Tomé e Príncipe no Mundial de Futebol Sub-15, realizado no Azerbaijão, reconhece as limitações que condicionaram a preparação da equipa e defende uma transformação profunda no futebol de formação santomense. Da goleada por 20-0 frente à Polónia à ausência de jogadores da diáspora, passando pelos critérios de convocatória e pelo futuro dos jovens atletas, Lígia Santos aborda os principais temas que marcaram a presença nacional na competição.

A participação da Seleção Nacional Sub-15 de São Tomé e Príncipe no torneio internacional da FIFA, realizado em Baku, no Azerbaijão, ficou marcada por resultados expressivos, dificuldades competitivas e um debate que ultrapassou largamente as quatro linhas.

Cinco derrotas na primeira fase, 45 golos sofridos e uma goleada por 20-0 diante da Polónia, num encontro de apenas 40 minutos, provocaram uma onda de críticas e interrogações sobre o verdadeiro estado do futebol de formação no país.

No entanto, a competição também proporcionou momentos de reação e superação, particularmente na segunda fase, durante a qual a equipa santomense conseguiu conquistar uma vitória frente às Bahamas.

Perante este cenário, multiplicaram-se as questões sobre a preparação da seleção, os critérios utilizados na escolha dos jogadores, a ausência de jovens futebolistas da diáspora e, sobretudo, a capacidade das estruturas desportivas nacionais para desenvolver atletas capazes de competir internacionalmente.

Para compreender o que esteve por detrás desta participação e conhecer a perspetiva de quem liderou a equipa no terreno, o Futebol STP entrevistou, em exclusivo, Lígia Santos, selecionadora nacional Sub-15.

Ao longo de sete questões, a treinadora reconhece as fragilidades existentes, assume a necessidade de analisar os resultados e identifica problemas estruturais que, na sua opinião, continuam a comprometer o desenvolvimento do futebol jovem em São Tomé e Príncipe.

A selecionadora sublinha, contudo, que a responsabilidade não deve recair exclusivamente sobre a Federação Santomense de Futebol, defendendo um compromisso coletivo que envolva clubes, associações, academias, treinadores e instituições públicas e privadas.

Numa entrevista marcada pela reflexão e pela preocupação com o futuro, Lígia Santos deixa uma mensagem central: a formação de jogadores não pode começar apenas quando surge uma competição internacional no calendário.

Segue-se a entrevista, na íntegra.

1. Preparação insuficiente para as exigências internacionais

A preparação da Seleção Nacional Sub-15 foi uma das primeiras questões levantadas após os resultados da competição. Num contexto em que o futebol de formação santomense enfrenta dificuldades relacionadas com a regularidade das competições e as condições de desenvolvimento dos atletas, importa perceber até que ponto o tempo disponível foi suficiente para preparar a equipa.

Futebol STP: Considera que o tempo de preparação foi suficiente para enfrentar uma competição desta dimensão? Que dificuldades encontrou durante a preparação e até que ponto essas limitações condicionaram o desempenho da equipa?

Lígia Santos:

Considero que o tempo de preparação não foi o ideal para uma competição desta dimensão e, sobretudo, para o nível de exigência que encontrámos.

Uma competição internacional exige preparação física, técnica, tática e psicológica, mas exige também uma base de trabalho desenvolvida ao longo de vários meses. No nosso caso, tivemos limitações relacionadas com o tempo disponível, a continuidade do trabalho e a falta de competição regular neste escalão.

É importante perceber que uma seleção não se constrói apenas nas semanas que antecedem uma competição. Constrói-se diariamente, através do trabalho dos clubes, das escolas de futebol e dos treinadores que acompanham os jovens.

Apesar das dificuldades, procurámos preparar os atletas da melhor forma possível, transmitir-lhes confiança, disciplina e sentido de responsabilidade para representarem o país.

Esta experiência mostrou-nos claramente que precisamos de começar a preparar as nossas seleções jovens muito antes das competições internacionais.

2. Ausência de jogadores da diáspora: uma oportunidade por explorar?

A convocatória da seleção também suscitou dúvidas sobre a ausência de jovens santomenses que praticam futebol em academias e clubes estrangeiros, particularmente em Portugal e Inglaterra.

Num país com uma comunidade significativa de emigrantes, a identificação e o acompanhamento de jogadores elegíveis fora do território nacional constituem uma questão importante para o futuro das seleções jovens.

Futebol STP: Por que razão a convocatória não incluiu jovens futebolistas santomenses que actuam em academias e clubes no estrangeiro, nomeadamente em Portugal e Inglaterra? Foi uma opção técnica, uma limitação logística ou existiam orientações específicas da FIFA relativamente à selecção dos jogadores?

Lígia Santos:

A participação de jovens santomenses que jogam em Portugal, Inglaterra e noutros países é uma questão muito importante e que merece maior atenção.

A convocatória foi construída tendo em conta os jogadores que foi possível identificar, observar e acompanhar no processo de preparação. No entanto, reconheço que precisamos de melhorar os mecanismos de identificação e acompanhamento dos jovens talentos da diáspora.

Não podemos olhar para o talento santomense apenas dentro das nossas fronteiras. Temos jovens com potencial fora do país que podem contribuir significativamente para o crescimento das nossas seleções.

Para isso, precisamos de criar uma rede de contactos com academias, clubes, treinadores e famílias, de forma a identificar antecipadamente os jogadores, acompanhar a sua evolução e facilitar os procedimentos de integração nas seleções nacionais.

O mais importante é que todos os jovens elegíveis tenham a oportunidade de ser observados e avaliados, independentemente do local onde praticam futebol.

3. A goleada por 20-0 frente à Polónia: um resultado que exige reflexão

Foi, indiscutivelmente, um dos episódios mais marcantes da participação santomense no torneio.

A derrota por 20-0 diante da Polónia, num encontro disputado em apenas 40 minutos, provocou indignação e levantou questões sobre a diferença competitiva entre as duas seleções.

Mais do que a dimensão do resultado, o encontro trouxe para o debate público as condições de preparação dos jovens futebolistas santomenses e a capacidade das estruturas nacionais para responder às exigências do futebol internacional.

Futebol STP: A derrota por 20-0 frente à Polónia, num encontro de apenas 40 minutos, provocou uma enorme indignação entre os santomenses. Enquanto seleccionadora, como explica um resultado desta dimensão? Considera que a diferença de qualidade entre as duas selecções justifica tamanha goleada ou houve também falhas na organização e preparação da equipa?

Lígia Santos:

Compreendo perfeitamente a indignação dos santomenses. Também nós, enquanto equipa técnica, sentimos o peso de um resultado desta dimensão.

Não vou procurar esconder ou desvalorizar o que aconteceu. É um resultado muito pesado e que demonstra a enorme diferença que ainda existe entre a nossa realidade e a de algumas seleções que possuem estruturas de formação consolidadas há muitos anos.

Mas é importante contextualizar que estamos perante jovens de 15 anos, muitos dos quais ainda não têm acesso a um processo de formação contínuo, a competições regulares e a condições de treino que lhes permitam desenvolver todas as competências necessárias para este nível de exigência.

Isso não retira a nossa responsabilidade enquanto equipa técnica. Pelo contrário, obriga-nos a analisar o que fizemos, reconhecer as nossas limitações e retirar ensinamentos.

Uma derrota desta dimensão não deve servir para apontar o dedo aos jovens, que tiveram a coragem de representar o seu país. Deve servir para questionarmos o que estamos a fazer, enquanto país, para preparar melhor as próximas gerações.

Não podemos exigir resultados de nível internacional a jovens que não têm, no seu percurso de formação, as mesmas oportunidades de preparação e competição que os seus adversários.

4. Critérios de convocatória: foram escolhidos os melhores jogadores disponíveis?

A escolha dos 14 atletas que representaram São Tomé e Príncipe constituiu outro dos temas centrais da entrevista.

Sem um sistema regular e abrangente de competições nos escalões de formação, a identificação dos jovens com maior potencial representa um desafio para qualquer equipa técnica nacional.

Questionada sobre o processo de seleção, Lígia Santos explica os critérios adotados e reconhece as limitações que condicionaram a observação de jogadores.

Futebol STP: Quais foram os principais critérios utilizados na escolha dos 14 jogadores convocados? Considera que foram seleccionados os melhores talentos disponíveis no país ou as limitações de tempo e a ausência de competições regulares nos escalões de formação impediram uma observação mais abrangente?

Lígia Santos:

A seleção teve como principais critérios a capacidade técnica, as características físicas, a compreensão do jogo, a atitude, a disponibilidade e o potencial de desenvolvimento dos atletas.

Procurámos selecionar jogadores que considerámos capazes de representar São Tomé e Príncipe nesta competição, dentro das condições e do universo de observação que tínhamos disponível.

Contudo, seria pouco rigoroso afirmar que conseguimos observar todos os talentos existentes no país. A ausência de um campeonato de formação estruturado, de competições regulares e de uma rede organizada de observação limita naturalmente a identificação dos melhores jogadores.

Precisamos de criar uma base de dados dos jovens futebolistas santomenses, realizar observações periódicas nas diferentes regiões e estabelecer critérios de seleção cada vez mais abrangentes e transparentes.

A seleção nacional deve ser o reflexo de um trabalho de formação desenvolvido em todo o país, e não apenas de um processo de identificação de jogadores pouco tempo antes de uma competição.

5. Entre as goleadas e a reação: que balanço fica do Mundial?

Se a primeira fase ficou marcada por cinco derrotas e 45 golos sofridos, a segunda apresentou sinais de recuperação competitiva.

A vitória frente às Bahamas representou um momento positivo para os jovens santomenses, depois de um início de competição particularmente difícil.

Mas será que a evolução demonstrada ao longo do torneio permite retirar conclusões positivas de uma participação marcada por resultados tão expressivos?

Futebol STP: Depois de uma primeira fase marcada por cinco derrotas e 45 golos sofridos, a selecção conseguiu apresentar uma reacção positiva na segunda fase da competição. Que balanço faz desta participação, tanto do ponto de vista dos resultados como da evolução técnica, táctica e psicológica dos jogadores?

Lígia Santos:

O balanço tem necessariamente duas dimensões: a competitiva e a formativa.

Do ponto de vista competitivo, não podemos ficar satisfeitos com os resultados da primeira fase, particularmente com a quantidade de golos sofridos. Temos de reconhecer que estivemos perante adversários com maior maturidade competitiva, intensidade e experiência internacional.

Por outro lado, considero importante destacar a capacidade de reação demonstrada pelos nossos jovens na segunda fase. A vitória frente às Bahamas foi um momento muito positivo, e a equipa conseguiu demonstrar que tinha capacidade para competir melhor, ganhar confiança e aplicar alguns dos princípios trabalhados.

Mais do que os resultados, levo desta experiência a evolução dos jogadores, a capacidade de adaptação a uma realidade diferente e o crescimento psicológico que uma competição internacional proporciona.

Estes jovens tiveram a oportunidade de conhecer outro nível de futebol, perceber as exigências internacionais e compreender aquilo que precisam de melhorar.

Não podemos transformar esta participação apenas numa avaliação de vitórias e derrotas. Temos de a encarar como um ponto de partida para um trabalho mais consistente.

6. O futuro desta geração: haverá continuidade depois do Mundial?

Terminada a competição internacional, emerge uma questão que poderá revelar-se ainda mais importante do que os próprios resultados: o que acontecerá aos jovens que representaram São Tomé e Príncipe?

A experiência adquirida no Azerbaijão poderá constituir uma oportunidade de crescimento, mas a sua valorização dependerá da existência de acompanhamento, competições e condições para que estes atletas continuem a desenvolver-se.

É precisamente sobre essa continuidade que incide a sexta questão da entrevista.

Futebol STP: Que projecto concreto existe para dar continuidade ao trabalho desenvolvido com estes jovens depois do Mundial? Há garantias de acompanhamento, integração em academias ou competições regulares, ou corremos o risco de ver esta geração regressar ao país sem qualquer plano estruturado para o seu desenvolvimento?

Lígia Santos:

Esta é, provavelmente, uma das questões mais importantes de toda a entrevista.

Seria uma enorme perda permitir que estes jovens regressassem ao país depois desta experiência e voltassem a encontrar a mesma realidade, sem continuidade competitiva e sem acompanhamento.

A minha preocupação é precisamente essa: que esta participação não seja apenas uma experiência isolada, mas o início de um processo de desenvolvimento.

Defendo que deve existir um plano de acompanhamento desta geração, com avaliações periódicas, treinos de continuidade, participação em competições nacionais e internacionais e identificação de oportunidades de integração em academias e clubes.

É igualmente importante manter uma ligação com os jovens que demonstram potencial e criar mecanismos de acompanhamento individual da sua evolução.

Naturalmente, um projeto desta natureza exige organização, recursos e o envolvimento de várias entidades. A Federação tem um papel fundamental na liderança e coordenação deste processo, mas não pode ser a única responsável pela formação e pelo futuro destes atletas.

Temos de mobilizar clubes, associações, escolas, treinadores, parceiros privados e instituições públicas.

Estes jovens representam o futuro do futebol santomense e não podemos desperdiçar o potencial desta geração.

7. O futuro do futebol de formação: o que precisa de mudar urgentemente?

A participação no Azerbaijão voltou a expor uma realidade frequentemente debatida no futebol santomense: a necessidade de investir de forma consistente na formação de jovens atletas.

A falta de campeonatos regulares, as limitações das infraestruturas, as dificuldades de acompanhamento dos talentos e a necessidade de qualificação contínua dos treinadores estão entre os desafios que exigem respostas estruturadas.

Mas a quem compete liderar essa transformação? E qual deve ser o papel dos restantes intervenientes no desenvolvimento do futebol nacional?

Na última questão, Lígia Santos apresenta a sua visão sobre as mudanças que considera prioritárias.

Futebol STP: Muito se tem discutido sobre a falta de investimento no futebol de formação em São Tomé e Príncipe. Na sua opinião, o que precisa de mudar urgentemente na estrutura do futebol nacional para que as próximas selecções jovens cheguem às competições internacionais mais bem preparadas e competitivas?

Lígia Santos:

Na minha opinião, precisamos de mudar a forma como olhamos para o futebol de formação no nosso país.

Não podemos continuar a pensar no desenvolvimento dos jovens apenas quando temos uma competição internacional pela frente. A formação tem de ser uma prioridade permanente.

Precisamos de campeonatos regulares nos diferentes escalões, melhores condições de treino, formação contínua de treinadores, maior capacidade de observação de talentos e um verdadeiro investimento nas academias e nos clubes.

Mas quero deixar uma mensagem que considero particularmente importante: o desenvolvimento do futebol jovem não pode depender exclusivamente da Federação Santomense de Futebol.

A Federação tem a responsabilidade de liderar o processo, definir estratégias, criar oportunidades, apoiar tecnicamente e estabelecer parcerias. Mas o desenvolvimento começa também nos clubes, nas escolas, nas associações distritais e regionais, nas academias e no trabalho diário dos treinadores.

Precisamos que os clubes assumam um compromisso mais forte com a formação, que as associações tenham um papel mais ativo na organização das competições e que as instituições públicas e privadas reconheçam o futebol jovem como um investimento no futuro do país.

Não podemos esperar que a Federação resolva sozinha todos os problemas da formação. É necessário que cada interveniente assuma a sua responsabilidade e contribua dentro das suas possibilidades.

Também precisamos de deixar de olhar para as seleções nacionais como o ponto de partida do desenvolvimento. As seleções devem ser o resultado de um trabalho que começa muito antes, nos clubes e nas academias.

Se queremos que São Tomé e Príncipe seja mais competitivo internacionalmente, temos de começar por garantir que os nossos jovens treinam regularmente, competem regularmente e têm acesso a treinadores qualificados.

O talento existe em São Tomé e Príncipe. O que precisamos é de criar condições para que esse talento seja descoberto, trabalhado e desenvolvido.

A participação no Azerbaijão deve ser encarada como uma oportunidade para refletirmos, aprendermos e, sobretudo, agirmos.

Não devemos procurar culpados, mas sim soluções. O futuro do futebol santomense começa na formação, e esse futuro é uma responsabilidade de todos nós.

Mensagem final de Lígia Santos: «O futebol jovem é uma responsabilidade de todos!»

No encerramento da entrevista, a selecionadora nacional deixa uma mensagem de reconhecimento aos jogadores que representaram São Tomé e Príncipe e um apelo à mobilização de todos os intervenientes no desenvolvimento do futebol nacional.

Lígia Santos:

Quero deixar uma palavra de reconhecimento a todos os jogadores que representaram São Tomé e Príncipe. São jovens que aceitaram um desafio enorme, enfrentaram adversários de grande qualidade e tiveram a oportunidade de representar a nossa bandeira numa competição internacional.

Independentemente dos resultados, devem sentir orgulho por esta experiência.

Agradeço igualmente à Federação, à organização e a todos os que contribuíram para que esta participação fosse possível. Espero sinceramente que esta experiência seja aproveitada para construir melhores oportunidades para os próximos jovens que representarão o nosso país.

Há uma ideia que merece ser particularmente destacada:

O futebol jovem é uma responsabilidade de todos!

A Federação não pode ser vista como a única entidade responsável pelo desenvolvimento do futebol em São Tomé e Príncipe. Precisamos de uma cultura de compromisso coletivo. Os clubes têm de formar, as associações têm de organizar, os treinadores têm de ensinar, as instituições têm de apoiar e a Federação tem de liderar e coordenar.

Só assim deixaremos de preparar seleções para participar em competições e passaremos a preparar jogadores para competir verdadeiramente ao nível internacional.

Para além dos resultados, um desafio que exige respostas

As declarações de Lígia Santos permitem compreender a perspetiva da equipa técnica sobre uma participação internacional que ficou inevitavelmente associada à dimensão das derrotas sofridas, mas que também reacendeu uma discussão necessária sobre os alicerces do futebol santomense.

Ao longo da entrevista, a selecionadora reconhece que a preparação foi insuficiente para as exigências da competição, admite limitações na observação dos jogadores disponíveis e defende a criação de mecanismos mais eficazes para identificar talentos dentro e fora do país.

A treinadora assume igualmente que os resultados exigem análise e reconhecimento de responsabilidades, mas alerta para a necessidade de não responsabilizar exclusivamente jovens atletas que enfrentaram adversários com realidades de formação muito distintas.

Uma das questões mais relevantes prende-se, contudo, com a continuidade do projeto. Embora defenda a implementação de um plano de acompanhamento dos jogadores, Lígia Santos não apresenta, nas respostas, garantias concretas de que esse programa esteja já formalizado ou assegurado pelas entidades responsáveis.

É precisamente neste ponto que o debate ganha particular importância.

Que medidas serão efetivamente adotadas para garantir que a experiência internacional desta geração não termine com o regresso dos atletas a São Tomé e Príncipe?

A realização de campeonatos regulares nos escalões jovens, a qualificação dos treinadores, o investimento nas infraestruturas, o acompanhamento dos talentos da diáspora e a articulação entre Federação, clubes e associações surgem como algumas das prioridades identificadas pela selecionadora.

Contudo, transformar estas necessidades em políticas concretas exige mais do que diagnósticos e declarações de intenção. Exige planeamento, financiamento, responsabilidades definidas e continuidade na execução.

O Mundial Sub-15 do Azerbaijão poderá ser recordado pelas goleadas sofridas ou poderá representar um ponto de viragem na forma como São Tomé e Príncipe encara o desenvolvimento dos seus jovens futebolistas.

A diferença dependerá, sobretudo, daquilo que for feito depois da competição.

O verdadeiro desafio do futebol santomense não é apenas conseguir participar em grandes torneios internacionais. É construir condições para que as próximas gerações estejam efetivamente preparadas para competir.

O Futebol STP agradece à selecionadora nacional Lígia Santos a disponibilidade para esta entrevista e a abertura demonstrada ao abordar questões que têm estado no centro do debate desportivo nacional.

Entrevista exclusiva: Futebol STP

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Publicado por: Redação

Lígia Santos: «Não podemos exigir resultados de nível internacional a jovens que não têm as mesmas oportunidades de preparação»

Data da publição: Nov 6, 2026

Lígia Santos: «Não podemos exigir resultados de nível internacional a jovens que não têm as mesmas oportunidades de preparação»

Em entrevista exclusiva ao Futebol STP, a selecionadora nacional Sub-15 analisa a participação de São Tomé e Príncipe no Mundial de Futebol Sub-15, realizado no Azerbaijão, reconhece as limitações que condicionaram a preparação da equipa e defende uma transformação profunda no futebol de formação santomense. Da goleada por 20-0 frente à Polónia à ausência de jogadores da diáspora, passando pelos critérios de convocatória e pelo futuro dos jovens atletas, Lígia Santos aborda os principais temas que marcaram a presença nacional na competição.

A participação da Seleção Nacional Sub-15 de São Tomé e Príncipe no torneio internacional da FIFA, realizado em Baku, no Azerbaijão, ficou marcada por resultados expressivos, dificuldades competitivas e um debate que ultrapassou largamente as quatro linhas.

Cinco derrotas na primeira fase, 45 golos sofridos e uma goleada por 20-0 diante da Polónia, num encontro de apenas 40 minutos, provocaram uma onda de críticas e interrogações sobre o verdadeiro estado do futebol de formação no país.

No entanto, a competição também proporcionou momentos de reação e superação, particularmente na segunda fase, durante a qual a equipa santomense conseguiu conquistar uma vitória frente às Bahamas.

Perante este cenário, multiplicaram-se as questões sobre a preparação da seleção, os critérios utilizados na escolha dos jogadores, a ausência de jovens futebolistas da diáspora e, sobretudo, a capacidade das estruturas desportivas nacionais para desenvolver atletas capazes de competir internacionalmente.

Para compreender o que esteve por detrás desta participação e conhecer a perspetiva de quem liderou a equipa no terreno, o Futebol STP entrevistou, em exclusivo, Lígia Santos, selecionadora nacional Sub-15.

Ao longo de sete questões, a treinadora reconhece as fragilidades existentes, assume a necessidade de analisar os resultados e identifica problemas estruturais que, na sua opinião, continuam a comprometer o desenvolvimento do futebol jovem em São Tomé e Príncipe.

A selecionadora sublinha, contudo, que a responsabilidade não deve recair exclusivamente sobre a Federação Santomense de Futebol, defendendo um compromisso coletivo que envolva clubes, associações, academias, treinadores e instituições públicas e privadas.

Numa entrevista marcada pela reflexão e pela preocupação com o futuro, Lígia Santos deixa uma mensagem central: a formação de jogadores não pode começar apenas quando surge uma competição internacional no calendário.

Segue-se a entrevista, na íntegra.

1. Preparação insuficiente para as exigências internacionais

A preparação da Seleção Nacional Sub-15 foi uma das primeiras questões levantadas após os resultados da competição. Num contexto em que o futebol de formação santomense enfrenta dificuldades relacionadas com a regularidade das competições e as condições de desenvolvimento dos atletas, importa perceber até que ponto o tempo disponível foi suficiente para preparar a equipa.

Futebol STP: Considera que o tempo de preparação foi suficiente para enfrentar uma competição desta dimensão? Que dificuldades encontrou durante a preparação e até que ponto essas limitações condicionaram o desempenho da equipa?

Lígia Santos:

Considero que o tempo de preparação não foi o ideal para uma competição desta dimensão e, sobretudo, para o nível de exigência que encontrámos.

Uma competição internacional exige preparação física, técnica, tática e psicológica, mas exige também uma base de trabalho desenvolvida ao longo de vários meses. No nosso caso, tivemos limitações relacionadas com o tempo disponível, a continuidade do trabalho e a falta de competição regular neste escalão.

É importante perceber que uma seleção não se constrói apenas nas semanas que antecedem uma competição. Constrói-se diariamente, através do trabalho dos clubes, das escolas de futebol e dos treinadores que acompanham os jovens.

Apesar das dificuldades, procurámos preparar os atletas da melhor forma possível, transmitir-lhes confiança, disciplina e sentido de responsabilidade para representarem o país.

Esta experiência mostrou-nos claramente que precisamos de começar a preparar as nossas seleções jovens muito antes das competições internacionais.

2. Ausência de jogadores da diáspora: uma oportunidade por explorar?

A convocatória da seleção também suscitou dúvidas sobre a ausência de jovens santomenses que praticam futebol em academias e clubes estrangeiros, particularmente em Portugal e Inglaterra.

Num país com uma comunidade significativa de emigrantes, a identificação e o acompanhamento de jogadores elegíveis fora do território nacional constituem uma questão importante para o futuro das seleções jovens.

Futebol STP: Por que razão a convocatória não incluiu jovens futebolistas santomenses que actuam em academias e clubes no estrangeiro, nomeadamente em Portugal e Inglaterra? Foi uma opção técnica, uma limitação logística ou existiam orientações específicas da FIFA relativamente à selecção dos jogadores?

Lígia Santos:

A participação de jovens santomenses que jogam em Portugal, Inglaterra e noutros países é uma questão muito importante e que merece maior atenção.

A convocatória foi construída tendo em conta os jogadores que foi possível identificar, observar e acompanhar no processo de preparação. No entanto, reconheço que precisamos de melhorar os mecanismos de identificação e acompanhamento dos jovens talentos da diáspora.

Não podemos olhar para o talento santomense apenas dentro das nossas fronteiras. Temos jovens com potencial fora do país que podem contribuir significativamente para o crescimento das nossas seleções.

Para isso, precisamos de criar uma rede de contactos com academias, clubes, treinadores e famílias, de forma a identificar antecipadamente os jogadores, acompanhar a sua evolução e facilitar os procedimentos de integração nas seleções nacionais.

O mais importante é que todos os jovens elegíveis tenham a oportunidade de ser observados e avaliados, independentemente do local onde praticam futebol.

3. A goleada por 20-0 frente à Polónia: um resultado que exige reflexão

Foi, indiscutivelmente, um dos episódios mais marcantes da participação santomense no torneio.

A derrota por 20-0 diante da Polónia, num encontro disputado em apenas 40 minutos, provocou indignação e levantou questões sobre a diferença competitiva entre as duas seleções.

Mais do que a dimensão do resultado, o encontro trouxe para o debate público as condições de preparação dos jovens futebolistas santomenses e a capacidade das estruturas nacionais para responder às exigências do futebol internacional.

Futebol STP: A derrota por 20-0 frente à Polónia, num encontro de apenas 40 minutos, provocou uma enorme indignação entre os santomenses. Enquanto seleccionadora, como explica um resultado desta dimensão? Considera que a diferença de qualidade entre as duas selecções justifica tamanha goleada ou houve também falhas na organização e preparação da equipa?

Lígia Santos:

Compreendo perfeitamente a indignação dos santomenses. Também nós, enquanto equipa técnica, sentimos o peso de um resultado desta dimensão.

Não vou procurar esconder ou desvalorizar o que aconteceu. É um resultado muito pesado e que demonstra a enorme diferença que ainda existe entre a nossa realidade e a de algumas seleções que possuem estruturas de formação consolidadas há muitos anos.

Mas é importante contextualizar que estamos perante jovens de 15 anos, muitos dos quais ainda não têm acesso a um processo de formação contínuo, a competições regulares e a condições de treino que lhes permitam desenvolver todas as competências necessárias para este nível de exigência.

Isso não retira a nossa responsabilidade enquanto equipa técnica. Pelo contrário, obriga-nos a analisar o que fizemos, reconhecer as nossas limitações e retirar ensinamentos.

Uma derrota desta dimensão não deve servir para apontar o dedo aos jovens, que tiveram a coragem de representar o seu país. Deve servir para questionarmos o que estamos a fazer, enquanto país, para preparar melhor as próximas gerações.

Não podemos exigir resultados de nível internacional a jovens que não têm, no seu percurso de formação, as mesmas oportunidades de preparação e competição que os seus adversários.

4. Critérios de convocatória: foram escolhidos os melhores jogadores disponíveis?

A escolha dos 14 atletas que representaram São Tomé e Príncipe constituiu outro dos temas centrais da entrevista.

Sem um sistema regular e abrangente de competições nos escalões de formação, a identificação dos jovens com maior potencial representa um desafio para qualquer equipa técnica nacional.

Questionada sobre o processo de seleção, Lígia Santos explica os critérios adotados e reconhece as limitações que condicionaram a observação de jogadores.

Futebol STP: Quais foram os principais critérios utilizados na escolha dos 14 jogadores convocados? Considera que foram seleccionados os melhores talentos disponíveis no país ou as limitações de tempo e a ausência de competições regulares nos escalões de formação impediram uma observação mais abrangente?

Lígia Santos:

A seleção teve como principais critérios a capacidade técnica, as características físicas, a compreensão do jogo, a atitude, a disponibilidade e o potencial de desenvolvimento dos atletas.

Procurámos selecionar jogadores que considerámos capazes de representar São Tomé e Príncipe nesta competição, dentro das condições e do universo de observação que tínhamos disponível.

Contudo, seria pouco rigoroso afirmar que conseguimos observar todos os talentos existentes no país. A ausência de um campeonato de formação estruturado, de competições regulares e de uma rede organizada de observação limita naturalmente a identificação dos melhores jogadores.

Precisamos de criar uma base de dados dos jovens futebolistas santomenses, realizar observações periódicas nas diferentes regiões e estabelecer critérios de seleção cada vez mais abrangentes e transparentes.

A seleção nacional deve ser o reflexo de um trabalho de formação desenvolvido em todo o país, e não apenas de um processo de identificação de jogadores pouco tempo antes de uma competição.

5. Entre as goleadas e a reação: que balanço fica do Mundial?

Se a primeira fase ficou marcada por cinco derrotas e 45 golos sofridos, a segunda apresentou sinais de recuperação competitiva.

A vitória frente às Bahamas representou um momento positivo para os jovens santomenses, depois de um início de competição particularmente difícil.

Mas será que a evolução demonstrada ao longo do torneio permite retirar conclusões positivas de uma participação marcada por resultados tão expressivos?

Futebol STP: Depois de uma primeira fase marcada por cinco derrotas e 45 golos sofridos, a selecção conseguiu apresentar uma reacção positiva na segunda fase da competição. Que balanço faz desta participação, tanto do ponto de vista dos resultados como da evolução técnica, táctica e psicológica dos jogadores?

Lígia Santos:

O balanço tem necessariamente duas dimensões: a competitiva e a formativa.

Do ponto de vista competitivo, não podemos ficar satisfeitos com os resultados da primeira fase, particularmente com a quantidade de golos sofridos. Temos de reconhecer que estivemos perante adversários com maior maturidade competitiva, intensidade e experiência internacional.

Por outro lado, considero importante destacar a capacidade de reação demonstrada pelos nossos jovens na segunda fase. A vitória frente às Bahamas foi um momento muito positivo, e a equipa conseguiu demonstrar que tinha capacidade para competir melhor, ganhar confiança e aplicar alguns dos princípios trabalhados.

Mais do que os resultados, levo desta experiência a evolução dos jogadores, a capacidade de adaptação a uma realidade diferente e o crescimento psicológico que uma competição internacional proporciona.

Estes jovens tiveram a oportunidade de conhecer outro nível de futebol, perceber as exigências internacionais e compreender aquilo que precisam de melhorar.

Não podemos transformar esta participação apenas numa avaliação de vitórias e derrotas. Temos de a encarar como um ponto de partida para um trabalho mais consistente.

6. O futuro desta geração: haverá continuidade depois do Mundial?

Terminada a competição internacional, emerge uma questão que poderá revelar-se ainda mais importante do que os próprios resultados: o que acontecerá aos jovens que representaram São Tomé e Príncipe?

A experiência adquirida no Azerbaijão poderá constituir uma oportunidade de crescimento, mas a sua valorização dependerá da existência de acompanhamento, competições e condições para que estes atletas continuem a desenvolver-se.

É precisamente sobre essa continuidade que incide a sexta questão da entrevista.

Futebol STP: Que projecto concreto existe para dar continuidade ao trabalho desenvolvido com estes jovens depois do Mundial? Há garantias de acompanhamento, integração em academias ou competições regulares, ou corremos o risco de ver esta geração regressar ao país sem qualquer plano estruturado para o seu desenvolvimento?

Lígia Santos:

Esta é, provavelmente, uma das questões mais importantes de toda a entrevista.

Seria uma enorme perda permitir que estes jovens regressassem ao país depois desta experiência e voltassem a encontrar a mesma realidade, sem continuidade competitiva e sem acompanhamento.

A minha preocupação é precisamente essa: que esta participação não seja apenas uma experiência isolada, mas o início de um processo de desenvolvimento.

Defendo que deve existir um plano de acompanhamento desta geração, com avaliações periódicas, treinos de continuidade, participação em competições nacionais e internacionais e identificação de oportunidades de integração em academias e clubes.

É igualmente importante manter uma ligação com os jovens que demonstram potencial e criar mecanismos de acompanhamento individual da sua evolução.

Naturalmente, um projeto desta natureza exige organização, recursos e o envolvimento de várias entidades. A Federação tem um papel fundamental na liderança e coordenação deste processo, mas não pode ser a única responsável pela formação e pelo futuro destes atletas.

Temos de mobilizar clubes, associações, escolas, treinadores, parceiros privados e instituições públicas.

Estes jovens representam o futuro do futebol santomense e não podemos desperdiçar o potencial desta geração.

7. O futuro do futebol de formação: o que precisa de mudar urgentemente?

A participação no Azerbaijão voltou a expor uma realidade frequentemente debatida no futebol santomense: a necessidade de investir de forma consistente na formação de jovens atletas.

A falta de campeonatos regulares, as limitações das infraestruturas, as dificuldades de acompanhamento dos talentos e a necessidade de qualificação contínua dos treinadores estão entre os desafios que exigem respostas estruturadas.

Mas a quem compete liderar essa transformação? E qual deve ser o papel dos restantes intervenientes no desenvolvimento do futebol nacional?

Na última questão, Lígia Santos apresenta a sua visão sobre as mudanças que considera prioritárias.

Futebol STP: Muito se tem discutido sobre a falta de investimento no futebol de formação em São Tomé e Príncipe. Na sua opinião, o que precisa de mudar urgentemente na estrutura do futebol nacional para que as próximas selecções jovens cheguem às competições internacionais mais bem preparadas e competitivas?

Lígia Santos:

Na minha opinião, precisamos de mudar a forma como olhamos para o futebol de formação no nosso país.

Não podemos continuar a pensar no desenvolvimento dos jovens apenas quando temos uma competição internacional pela frente. A formação tem de ser uma prioridade permanente.

Precisamos de campeonatos regulares nos diferentes escalões, melhores condições de treino, formação contínua de treinadores, maior capacidade de observação de talentos e um verdadeiro investimento nas academias e nos clubes.

Mas quero deixar uma mensagem que considero particularmente importante: o desenvolvimento do futebol jovem não pode depender exclusivamente da Federação Santomense de Futebol.

A Federação tem a responsabilidade de liderar o processo, definir estratégias, criar oportunidades, apoiar tecnicamente e estabelecer parcerias. Mas o desenvolvimento começa também nos clubes, nas escolas, nas associações distritais e regionais, nas academias e no trabalho diário dos treinadores.

Precisamos que os clubes assumam um compromisso mais forte com a formação, que as associações tenham um papel mais ativo na organização das competições e que as instituições públicas e privadas reconheçam o futebol jovem como um investimento no futuro do país.

Não podemos esperar que a Federação resolva sozinha todos os problemas da formação. É necessário que cada interveniente assuma a sua responsabilidade e contribua dentro das suas possibilidades.

Também precisamos de deixar de olhar para as seleções nacionais como o ponto de partida do desenvolvimento. As seleções devem ser o resultado de um trabalho que começa muito antes, nos clubes e nas academias.

Se queremos que São Tomé e Príncipe seja mais competitivo internacionalmente, temos de começar por garantir que os nossos jovens treinam regularmente, competem regularmente e têm acesso a treinadores qualificados.

O talento existe em São Tomé e Príncipe. O que precisamos é de criar condições para que esse talento seja descoberto, trabalhado e desenvolvido.

A participação no Azerbaijão deve ser encarada como uma oportunidade para refletirmos, aprendermos e, sobretudo, agirmos.

Não devemos procurar culpados, mas sim soluções. O futuro do futebol santomense começa na formação, e esse futuro é uma responsabilidade de todos nós.

Mensagem final de Lígia Santos: «O futebol jovem é uma responsabilidade de todos!»

No encerramento da entrevista, a selecionadora nacional deixa uma mensagem de reconhecimento aos jogadores que representaram São Tomé e Príncipe e um apelo à mobilização de todos os intervenientes no desenvolvimento do futebol nacional.

Lígia Santos:

Quero deixar uma palavra de reconhecimento a todos os jogadores que representaram São Tomé e Príncipe. São jovens que aceitaram um desafio enorme, enfrentaram adversários de grande qualidade e tiveram a oportunidade de representar a nossa bandeira numa competição internacional.

Independentemente dos resultados, devem sentir orgulho por esta experiência.

Agradeço igualmente à Federação, à organização e a todos os que contribuíram para que esta participação fosse possível. Espero sinceramente que esta experiência seja aproveitada para construir melhores oportunidades para os próximos jovens que representarão o nosso país.

Há uma ideia que merece ser particularmente destacada:

O futebol jovem é uma responsabilidade de todos!

A Federação não pode ser vista como a única entidade responsável pelo desenvolvimento do futebol em São Tomé e Príncipe. Precisamos de uma cultura de compromisso coletivo. Os clubes têm de formar, as associações têm de organizar, os treinadores têm de ensinar, as instituições têm de apoiar e a Federação tem de liderar e coordenar.

Só assim deixaremos de preparar seleções para participar em competições e passaremos a preparar jogadores para competir verdadeiramente ao nível internacional.

Para além dos resultados, um desafio que exige respostas

As declarações de Lígia Santos permitem compreender a perspetiva da equipa técnica sobre uma participação internacional que ficou inevitavelmente associada à dimensão das derrotas sofridas, mas que também reacendeu uma discussão necessária sobre os alicerces do futebol santomense.

Ao longo da entrevista, a selecionadora reconhece que a preparação foi insuficiente para as exigências da competição, admite limitações na observação dos jogadores disponíveis e defende a criação de mecanismos mais eficazes para identificar talentos dentro e fora do país.

A treinadora assume igualmente que os resultados exigem análise e reconhecimento de responsabilidades, mas alerta para a necessidade de não responsabilizar exclusivamente jovens atletas que enfrentaram adversários com realidades de formação muito distintas.

Uma das questões mais relevantes prende-se, contudo, com a continuidade do projeto. Embora defenda a implementação de um plano de acompanhamento dos jogadores, Lígia Santos não apresenta, nas respostas, garantias concretas de que esse programa esteja já formalizado ou assegurado pelas entidades responsáveis.

É precisamente neste ponto que o debate ganha particular importância.

Que medidas serão efetivamente adotadas para garantir que a experiência internacional desta geração não termine com o regresso dos atletas a São Tomé e Príncipe?

A realização de campeonatos regulares nos escalões jovens, a qualificação dos treinadores, o investimento nas infraestruturas, o acompanhamento dos talentos da diáspora e a articulação entre Federação, clubes e associações surgem como algumas das prioridades identificadas pela selecionadora.

Contudo, transformar estas necessidades em políticas concretas exige mais do que diagnósticos e declarações de intenção. Exige planeamento, financiamento, responsabilidades definidas e continuidade na execução.

O Mundial Sub-15 do Azerbaijão poderá ser recordado pelas goleadas sofridas ou poderá representar um ponto de viragem na forma como São Tomé e Príncipe encara o desenvolvimento dos seus jovens futebolistas.

A diferença dependerá, sobretudo, daquilo que for feito depois da competição.

O verdadeiro desafio do futebol santomense não é apenas conseguir participar em grandes torneios internacionais. É construir condições para que as próximas gerações estejam efetivamente preparadas para competir.

O Futebol STP agradece à selecionadora nacional Lígia Santos a disponibilidade para esta entrevista e a abertura demonstrada ao abordar questões que têm estado no centro do debate desportivo nacional.

Entrevista exclusiva: Futebol STP

Publicado por: Redação

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